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Caboclinho: agora, patrimônio cultural nacional

Encontro de caboclinhos em Goiana (PE) para comemorar o título. Foto: Roberta GuimarãesEncontro de caboclinhos em Goiana (PE) para comemorar o título. Foto: Roberta Guimarães
Desde novembro do ano passado, folguedo ligado às tradições de matriz indígena passa a integrar as expressões populares brasileiras salvaguardadas

 

Era fim de tarde no Engenho Mussumbu, em Goiana – PE, e uma dezena de ônibus antigos, estacionados sobre o chão de terra batida, assinalava que os caboclinhos já haviam chegado. À contraluz do sol, revelavam-se as fantasias repletas de penas, nos porta-malas, no chão e, aos poucos, nos corpos dos brincantes, que, apressados, começavam a se preparar para a apresentação que logo começaria. Por cima de pequenos shorts, as meninas e os meninos, as mulheres e os homens de 14 tribos diferentes sobrepunham as tangas, amarravam as atacas nos pulsos e tornozelos e seguravam seus cocares nas mãos para encaixá-los na cabeça, esperando a hora do desfile em comemoração ao título de Patrimônio Cultural do Brasil, recebido em novembro de 2016.

Nana, a essa hora, mantinha o foco e o empenho para que tudo se mantivesse dentro do mínimo de controle. Enquanto presidenta do Canindé do Recife, o caboclinho mais antigo em atividade e Patrimônio Vivo de Pernambuco, cabia-lhe dar conta de organizar os quase 50 brincantes, metade de crianças, que saíram da Bomba do Hemetério, na capital, pouco depois do almoço. Dois, quatro, seis, oito, contara aos pares, antes de embarcarem rumo a Goiana, cidade conhecida pela abundância dessa e de outras expressões populares. Depois da chegada, não havia mais conta possível. A meninada se espalhava no terreiro, corria com as fantasias pela metade, já ensaiando espontaneamente os passos que aprendera imitando os mais velhos muitas vezes, no mesmo momento em que aprendia a caminhar. O som agudo da gaita (flauta reta de metal, característica dos caboclinhos) já se ouvia por todo os cantos. Mesmo que as apresentações não tivessem começado, assim como os mais novos, os músicos, adultos, também já se juntavam em trios (ou “ternos”, como é mais comum chamar), iniciando a brincadeira com tarol (espécie de tambor) e caracaxá (chocalho também de metal).

– Nana, estava querendo conversar um pouco com você sobre o Canindé e o título de Patrimônio Cultural do Povo Brasileiro dado aos caboclinhos – digo, ao me aproximar.

Enfiada dentro do porta-malas do ônibus, retirando as indumentárias que completariam as fantasias de quatro curumins (os mais novos), a mulher de 40 e poucos anos, estatura baixa e cabelos pretos na altura dos ombros, bagunçados pelo excesso de tarefas, tenta começar a conversa, uma, duas, três vezes, sempre interrompida por alguém que o chamava, perguntava, demandava. Ao ver os meninos correndo para fora dos limites do engenho, desembesta-se atrás deles e deixa a entrevista pra depois.

– Fala com Guedes, sugere, gritando, já afastada, enquanto corria chamando os meninos de volta para o seu ângulo de visão e cuidado.

Guedes ainda não tinha descido do ônibus. Tentava se concentrar na sombra abafada do coletivo, antes da tocada. Estava sentando em uma poltrona, com a sua gaita, companheira inseparável desde 2006, quando a tocou pela primeira vez. “Eu morava na Ilha do Maruim (Olinda) e sempre olhava admirado os caboclinhos passando e imaginava o dia em que eu entraria em contato com eles. Demorou muito, mas depois que eu fui lá no Canindé pela primeira vez, nunca mais deixei”, começa contando.

Brincantes da manifestação se preparam para o encontro de Goiana. Foto: Roberta GuimarãesBrincantes da manifestação se preparam para o encontro de Goiana. Foto: Roberta Guimarães

Guedes é um dos poucos integrantes do grupo que não é morador da Bomba e nem tem nenhuma relação familiar com os demais. Sua presença, singular, acaba por nos apontar para um dos principais elementos da cultura popular, que é o caráter comunitário, seja pelos laços consanguíneos, seja pelas relações de vizinhança. No caso do Canindé, o mestre Bibiano, líder da brincadeira desde a década de 1950, passou o comando do grupo para Juracy, sua filha, em 1985. Sem herdeiros biológicos, Juracy escolheu sua afilhada Nana para tocar o brinquedo, quando morresse. Juracy faleceu em junho de 2015. Josiely, de apenas 18 anos, que desfilou pela primeira vez quando ainda usava fralda, já carrega a responsabilidade de substituir Nana, se preciso for.

O gaiteiro é olindense e se aproximou do Canindé motivado por uma pesquisa que fazia sobre música e religião nos caboclinhos (ou seria o contrário: escolheu estudar música e religião motivado pela paixão da infância?). Cleiton, na época o cacique do folguedo, levou-o à sede, no período do Carnaval, para que Guedes pedisse permissão ao grupo para acompanhá-los no desfile de agremiações. Em junho do mesmo ano, recebeu um recado de Cleiton. “Juracy quer falar contigo. E ela disse que tem que ser logo.” Foi.

Tu vai ser o gaiteiro do Canindé. Sonhei com minha mãe me dizendo isso. Tu se garante?”, perguntou a então líder no tom direto que a caracteriza. Guedes que, apesar de flautista, nunca tinha tocado gaita, aceitou, inseguro. Esperou os momentos de ensaio sem saber que em brinquedo popular não tem disso. “Tu vai e faz. Aqui se aprende fazendo”, explicou Juracy, quando perguntada como é que seria na apresentação do Festival de Inverno de Garanhuns em julho do mesmo ano. “Tu já fez até o repique? Então está muito bem”, comentou a performance, referindo-se aos agudos mais fortes disparados pela gaita. Desde então, Guedes nunca mais se ausentou de tocadas do grupo em concurso ou apresentação.

Aproveito os últimos minutos antes da vez de Guedes se arrumar e peço para que me mostre os diferentes ritmos do caboclinho. Com os quatro furos da gaita, toca o ritmo “guerra”, mais acelerado, o “perré”, um pouco mais cadenciado, e a “macumba de índio”, tocado, geralmente, nos momentos em que se cultua o caboclo protetor do brinquedo. Incluem-se nos ritmos ainda, segundo a pesquisa do governo do estado que serviu de base para os caboclinhos se tornarem patrimônio, os ritmos “baião” e a “sambada”. Este último, influenciado pelos toques do maracatu rural.

Descemos juntos, Guedes e eu, seguindo o chamado de Nana para que ele também colocasse sua fantasia. As tribos que antecederiam o Canindé no desfile do engenho já começavam a se enfileirar. Enquanto o Oxossi Pena Branca, do Alto do Pascoal, era anunciado pelo locutor e avançava nas tradicionais duas filas de caboclos, a presidenta retocava o brilho dourado, espalhando purpurina na pele de cada uma das meninas que lhe circundavam. Ao lado, os cocares mais pesados eram encaixados nas cabeças com o auxílio de outros integrantes do grupo. Em alguns casos, são necessários até protetores para as cabeças que vão aguentar uma dezena de quilos, enquanto o resto do corpo se mexe em passos ágeis.

O som do terno do Oxossi Pena Branca, já amplificado pelas caixas de som, reverberava por todo o engenho. Na gaita, o veterano Nadinho, com meio século de experiência no instrumento, conduzia o bailado do seu grupo na “guerra”, no “perré” e na “macumba”. Aos 66 anos e tocando desde os 15, Nadinho é o gaiteiro mais experiente de Pernambuco. Passou por diversos grupos do Recife, desde o já inexistente Tabajara, do Alto José do Pinho, até o também Patrimônio Vivo de Pernambuco Caboclinho Sete Flexas do Recife, passando ainda pelo Canindé.

Das penas e do som nos preparativos do encontro. Foto: Roberta GuimarãesDas penas e do som nos preparativos do encontro. Foto: Roberta Guimarães

Enquanto cessavam os repiques de Nadinho, iniciavam-se os de Guedes, anunciando a hora da entrada da sua agremiação. Acompanhando de longe, Nana, talvez pelo hábito das tantas vezes em que competiu nas ruas do Recife Antigo no Carnaval, torcia para que fossem os mais bonitos da noite. Desejou sorte à sua afilhada Josiely, que desfila como Cacique e se permitiu relaxar por um momento.

Ver o Canindé, assim como observar as outras 13 tribos que desfilaram durante aquela noite de comemoração pelo título de Patrimônio Cultural do Brasil, além de um espetáculo de uma beleza dificilmente descritível, foi capaz de revelar as diversas camadas da cultura dos caboclinhos que tentaremos destrinchar.


Confira outras fotos de Roberta Guimarães:

 

 

CONTEXTO HISTÓRICO
De todas as danças dramáticas que vi, os caboclinhos são o único bailado verdadeiro”, escreveu Mário de Andrade, ao chegar da Missão de Pesquisa Folclórica. Na época, Andrade integrava o Departamento de Cultura de São Paulo, empenhado em investigar aspectos formadores da identidade nacional. Quase um século depois desse que é um dos primeiros registros históricos dessa expressão popular, no último dia 24 de novembro, os caboclinhos conquistaram o título de Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan, em Brasília.
Embora os grupos de caboclinhos não sejam homogêneos, é possível reconhecer a presença de diversos elementos comuns aos brincantes, tanto na forma como no conteúdo, permitindo-lhes sentirem-se parte de um mesmo universo. Assim como em diversas manifestações encontradas na cultura popular, grande parte dos grupos de caboclinho é marcada por um conjunto de práticas e saberes que envolve arte, celebração e religiosidade.

A geografia desses grupos compreende os estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba, havendo registros também em Alagoas e Minas Gerais. Pernambuco, no entanto, é onde há maior incidência, com presença significativa na capital, o Recife, e na Zona da Mata Norte do Estado, região marcada pelos antigos aldeamentos jesuíticos e palco de diversas políticas indigenistas. Atualmente, são identificados cerca de 70 grupos de caboclinhos em Pernambuco, dos quais aproximadamente 30 estão na capital.

Brincadeira tem força única. Foto: Roberta GuimarãesBrincadeira tem força única. Foto: Roberta Guimarães

Apesar da referência à cultura indígena, evidente nas vestimentas e adereços, segundo pesquisa realizada para o Inventário Nacional de Referência Cultural, os caboclinhos são uma manifestação miscigenada que apresenta elementos de origens diversas – europeia, africana, indígena –, sendo, portanto, fruto de transformações decorrentes desses encontros. O mesmo inventário aponta para a hipótese de que a expressão tenha sua origem ligada às áreas em que por mais tempo permaneceram a memória e a identidade indígenas, o que nos remete, no caso de Pernambuco, à Mata Norte.

Como nas outras manifestações características dessa área, tais quais o maracatu rural e o cavalo-marinho, o caboclinho tem na religiosidade uma de suas marcas. Deste modo, seus brincantes, pelo menos uma parte significativa deles, concebem-no como uma forma de relacionar-se com uma das muitas entidades da categoria Caboclo. Nesta perspectiva, além do caráter lúdico e socializador, o caboclinho se configura como um espaço de reafirmação de um conjunto de crenças e práticas integradas à vida religiosa de homens e mulheres, que têm na tradição da jurema uma de suas principais referências.

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Assista a ensaio de caboclinhos em Goiana:

Fonte: Caboclinho: agora, patrimônio cultural nacional

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