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Dona Glorinha do Coco leva a tradição de Amaro Branco ao Outras Palavras

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Aos 83 anos, Dona Glorinha do Coco é a coquista mais idosa do Amaro Branco, em Olinda

Marcus Iglesias

A tradição do coco de roda do Amaro Branco, em Olinda, liderado por Dona Glorinha do Coco, uma mestra da região, foi uma das atrações da edição do Outras Palavrasrealizada na última quinta-feira (30), no EREM Eurídice Cadaval, em Itapissuma, na Região Metropolitana do Recife. Atualmente, Dona Glorinha é a coquista mais idosa da sua comunidade, onde reside desde seu nascimento, em 1934. Recentemente recebeu o II Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia, um reconhecimento ao trabalho que desenvolve na cultura popular pernambucana.

“Mesmo com a idade, no auge dos seus 83 anos, essa mestra tem uma dinâmica e alegria muito grande. É importante que a gente reconheça o trabalho que Dona Glorinha vem realizando para que a tradição do coco possa perpassar as novas gerações”, comentou Márcia Branco, da equipe do Outras Palavras, antes de dar as boas vindas à mestra e chamá-la ao palco.

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“Tudo o que eu sei hoje aprendi com minha mãe nas rodas que frequento desde que eu tinha sete anos de idade”, revelou Dona Glorinha do Coco

Dona Glorinha é uma memória viva do coco praieiro, e estreou com um disco pela primeira vez aos 80 anos, o Dona Glorinha do Coco, que concorreu ao Prêmio da Música Brasileira na categoria Regional, em 2015. O repertório era formado quase todos por cocos compostos pela mãe, além de dois de domínio público.

“Sou uma artista da cultura popular e vim aqui falar pra vocês sobre o coco de roda. Tem dois tipos, o de umbigada e o de roda. O de roda é o que faz aquela roda, e dois entram e brincam, e o umbigada é umbigada pra lá e pra cá”, disse, para diversão da garotada que assistia a tudo com muito respeito e interesse.

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A coquista se apresentou ao lado dos músicos Isa Melo (produtora e ganzá), Viola Luz (zambumba), Tony Boy (pandeiro), e Ione Silva (back vocal)

“Tudo o que eu sei hoje aprendi com minha mãe nas rodas que frequento desde que eu tinha sete anos de idade. Naquela época não tinha cadeira, e pra eu ficar maiorzinha eu subia num tamborete. Me lembro que os músicos tocavam o ganzá e a zabumba, minha mãe cantava e eu respondia. E estou aqui até hoje”, revelou Dona Glorinha, que estava acompanhada de Isa Melo (produtora e ganzá), Viola Luz (zambumba), Tony Boy (pandeiro), e Ione Silva (back vocal). No repertório, a mestra apresentou alguns de seus cocos mais conhecidos, como Esse coco é bom na virada, e fez um em homenagem a Itapissuma com a participação dos jovens que entraram na brincadeira.

 

Debate com Rômulo César – A edição do Outras Palavras em Itapissuma teve ainda um encontro com o escritor premiado na segunda edição do Prêmio Pernambuco de Literatura, com o livro Dois Nós Na Gravata, na categoria Contos. A conversa foi mediada por Humberto de Souza, integrante da equipe da Secult-PE e Fundarpe, que explicou a proposta do bate-papo. “A gente quer assim desmistificar a imagem que criamos sobre os autores, de que eles são inacessíveis, e diminuir essa distância que existe entre o escritor e o leitor. Não é uma conversa amarrada, formal, mas que a gente possa se entender e se fazer entender nela”.

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Estudantes puderam conversar diretamente com o escritor Rômulo César, vencedor do II Prêmio Pernambuco de Literatura

“Queria que você iniciasse explicando um pouco como foi que surgiu a ideia desse livro, bem como suas expectativas até o momento que você recebeu essa importante premiação e o reconhecimento do seu trabalho”, quis saber o mediador. “Eu vinha participando de oficinas de contos, e nela a gente leva textos, debates, e fui com o tempo me preparando até chegar no livro Dois nós na gravata, que é um apanhado de contos meus numa pegada mais adultos, textos mais densos e fortes. Mas nada vem por acaso, não adianta apenas achar que sabe escrever ou até saber. É preciso trabalhar sério pra conseguir galgar seus sonhos”, detalhou Rômulo César.

Outra pergunta que Humberto fez ao escritor foi se há um conto específico que ele gosta mais. “Eu vou dizer uma coisa muito clichê, os contos são como filhos meus. Não sei qual seria o melhor ou o que eu gosto mais. Eu procuro sempre a resposta do leitor, quais foram mais falados e comentados. Mas no fundo no fundo até com os filhos você tem mais intimidade. Nesse livro tem um em particular que fala da minha viagem no meu terceiro ano para Fortaleza. Claro que tudo ficção, mas o cenário, as pessoas, há um afeto. E nele eu homenageei meus quatro melhores amigos”.

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“Confesso que tenho mais atenção aos contos que são voltados às contradições da faceta humana, é o que eu gosto como leitor. Como autor, tive essa proposta, atingir o leitor de várias formas diferentes”, revelou o escritor

“Há um outro que eu considero, acho o melhor deles, e foi premiado também no Concurso Ateneu, no Rio de Janeiro, é o que fala de Machado de Assis. Eu amo esse autor e achei interessante o conto porque é ele recebendo no seu leito de morte a visita de dois dos seus personagens principais, Betinho e Brás Cubas”, opinou o autor.

Rômulo César falou ainda sobre a opção de tratar neste livro de contos não com uma temática específica, mas com várias temáticas, seja suspense, comédia ou drama. “Era isso que eu queria que os leitores pensassem sobre o livro. Na minha ótica existem duas posições quando você vai fazer um livro de contos. A primeira opção é fazer um livro temático, no qual todos vão girar em torno disso. A outra é uma obra salteada, que vai chocar um alguém, emocionar outro alguém, fazer rir uma terceira pessoa. Eu confesso que tenho mais atenção aos contos que são voltados às contradições da faceta humana, é o que eu gosto como leitor. Como autor, tive essa proposta, atingir o leitor de várias formas diferentes”, concluiu.

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Edição do Outras Palavras contou com a participação de vários estudantes, que fizeram perguntas ao autor sobre o seu fazer literário

Esta foi uma edição do Outras Palavras com muita participação dos jovens, com vários blocos de perguntas direcionadas ao autor pernambucano. A estudante Sara Moreira, por exemplo, quis saber do autor quais as dificuldades que ele encontrou para escrever. “Eu não tenho bloqueio pra escrever, mas quando eu começo eu preciso terminar. Eu estou agora num conto baseado no acidente envolvendo dois carros e várias famílias que aconteceu no Recife no último domingo, muito triste, eu conhecia uma das vítimas. O conto não fala sobre o acidente, é uma ficção sobre o tema. Mas eu não consegui terminar e isso está me dando agonia, preciso dar o ponto final. E pode ser que eu termine e não goste dele, é uma coisa que acontece”.

O estudante Henrique Gomes, por sua vez, perguntou qual dica o escritor dá para quem quer começar a escrever. “Primeiro tem que amar o que faz. Paixão. É isso que é literatura. Eu falo disso e meus olhos brilham, por isso eu gosto de ir pra escola falar desse assunto. Gosto de debater, ouvir as perguntas. Eu lembro da minha infância quando autores iam conversar com a gente, e quebrava a ideia de que o cara era um intelectual. Que nada, era um ser humano como outro qualquer com vários defeitos. Segundo, tem que ler, ler e ler muito. E terceiro é sentar a bundinha na cadeira e escrever. Meu mentor, Raimundo Carrero, costuma dizer que quando você começar um texto não tenha a pretensão de fazer a melhor obra do mundo. Escreva, refaça, releia, que ele vai fluir naturalmente. É algo que pede tempo, exige atenção e coragem”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Meu mentor, Raimundo Carrero, costuma dizer que quando você começar um texto não tenha a pretensão de fazer a melhor obra do mundo. Escreva, refaça, releia, que ele vai fluir naturalmente. É algo que pede tempo, exige atenção e coragem”, sugeriu Rômulo César aos alunos

Rômulo César agora se prepara para seu primeiro livro de poesias, Bad Trip,publicado pela Cartonera Mariposa e que será lançado na próxima terça-feira (6), no Recife.

Arte e cinema na escola – Esta edição do Outras Palavras também deu destaque à produção cultural realizada dentro do EREM Eurídice Cadaval. É que lá, desde 2008, um grupo de estudantes, coordenados pela professora Kelly Costa, tem trabalhado com a sétima arte e na produção de curtas, alguns inclusive premiados no projeto Cine Cabeça promovido pela Secretaria de Educação até o ano passado. Atualmente, os jovens e a professora desenvolvem o Cineclube Pedra Negra, que abre sessões abertas ao público em Itapissuma e que está em fase de finalização de um novo curta, Na Guerra da Vida, que conta a superante história do professor José Ricardo, que tem deficiência visual desde os quinze anos de idade.

A estudante Franciele Rafaela, do 3º ano, é uma das jovens que participa do cineclube e que participou da produção do curta. “Eu primeiramente queria agradecer a nossa professora Kelly Costa que deu a oportunidade e abriu portas para que a gente conhecesse e trabalhasse com cinema. Nosso filme conta a história do professor José Ricardo, uma história de superação bem emocionante, e tenho certeza que quando ele for concluído vai ser um sucesso”, comemorou a aluna.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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A estudante Franciele Rafaela, do 3º ano, é uma das jovens que participa do cineclube Pedra Negra, formado por estudantes e professores da própria escola

De acordo com Kelly Costa, alguns alunos da escola tiveram a oportunidade de participar do projeto Cine Cabeça e que chegou em Itapissuma em 2010. “Quando o projeto veio pra cá nós fizemos algumas parcerias que renderam os filmes 360 e Contar a Nossa História, premiados pela iniciativa”,pontuou, destacando que agora o grupo segue focado na conclusão do curta Na Guerra da Vida.

“Desde fevereiro que a gente está trabalhando no filme e é a história de um professor de Educação Física, deficiente visual, que perdeu a visão aos quinze anos de idade. Um professor concursado do município, mas mora em Camaragibe, e que faz esse percurso todos os dias. Agora vamos contar com apoio da Fundarpe para o processo de edição do curta, e tivemos ao longo de todo o trabalho uma parceria da Prefeitura de Itapissuma, que nos ofereceu toda a estrutura para trabalhar”, destacou, reforçando que quando o filme estiver pronto haverá um lançamento especial na cidade.

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“É importante que vocês conheçam de perto essas pessoas, porque é uma forma de estimular e dizer que existem escritores e artistas da cultura popular que estão vivos, que são pessoas iguais a nós e que estão ai hoje defendendo seus trabalhos na cultura”, ressaltou Márcia Branco

Alcance do Outras Palavras – Márcia Branco aproveitou para dizer aos alunos que a Secretaria de Cultura do estado e Fundarpe já passaram com esta iniciativa em mais de 370 escolas de Pernambuco, atingindo quase nove mil estudantes. “Da Região Metropolitana até o interior do estado, levando sempre escritores e patrimônios do nosso estado. É importante que vocês conheçam de perto essas pessoas, porque é uma forma de estimular e dizer que existem escritores e artistas da cultura popular que estão vivos, que são pessoas iguais a nós e que estão ai hoje defendendo seus trabalhos na cultura”.

“Vai ficar aqui com vocês um kit de literatura com livros premiados no Prêmio Pernambuco de Literatura, que teve este ano a denominação mudada para Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura. E deixo a dica que livro não é pra ficar na estante, é pra ser lido, dividido, compartilhado e discutido na sala de aula”,lembrou Márcia Branco, antes de entregar à diretoria o kit.

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