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Patativa do Assaré: o poeta da justiça social

Patativa do Assaré: o poeta da justiça social

“Patativa do Assaré, homem e poeta do campo, adquiriu ao longo de sua existência uma aguçada visão crítica da dura realidade social do povo sertanejo. Esta visão fez com que o poeta mantivesse na vida sempre uma postura de combate e nunca de omissão, uma posição política muito bem esclarecida e nunca de alienação em relação aos problemas sociais em que vivia seu povo – uma realidade cruel e brutal, ora marcada pelas constantes secas que castigavam e ainda castigam o nordeste brasileiro, ora marcada pela invariável exploração a que o nordestino sempre foi submetido, quer seja por uma classe política que sempre lucrou com a rentável indústria da seca, quer seja pela exploração de patrões que nunca respeitaram os direitos do trabalhador, sobretudo nos campos do nordeste.

Um dos títulos atribuídos a Patativa é o de poeta social, porque poucos como ele tiveram a sensibilidade, a perspicácia e a coragem de mostrar, através da beleza e do lirismo da poesia, as mazelas sociais mais profundas presentes na sociedade brasileira. Assim, “o poeta e cantor da roça capta e descreve, com aguda perspicácia, a realidade social em toda sua abrangência”.

Através da semente da poesia, Patativa plantou e depois distribuiu ao mundo muitos frutos. Um deles lhe rendeu o título de poeta social, porque soube perceber, de forma sutil, desde os mais explícitos até os mais camuflados mecanismos de injustiça social aos quais os nordestinos são submetidos. Daí o seguinte depoimento: “sua poesia, do ponto de vista social, reflete todo o mundo visionário e fantasmagórico do caboclo”, visto como um espoliado até mesmo do direito básico e inalienável de possuir um pedaço de terra para plantar.

Muitas poesias de Patativa trazem em seu conteúdo o grito e a denúncia contra as injustiças sociais, mostrando a realidade de um Brasil marcado problemas sociais graves. Um exemplo pode ser encontrado no poema Brasi de cima e Brasi de baxo:

Inquanto o Brasi de Cima / Fala de transformação / Industra, matéra prima / Descobertas e invenção, / No Brasi de Baxo isiste / O drama penoso e triste / Da negra necissidade; / É uma cousa sem jeito / E o povo não tem dereito / Nem de dizê a verdade. No Brasi de Baxo eu vejo / Nas ponta das pobre rua / o descontente cortejo / De criança quage nua. / Vai um grupo de garoto / Faminto, doente e roto / Mode caçá o que comê / Onde os carro põe o lixo, / Como se eles fosse bicho / Sem direito de vive.

Patativa procura demonstrar a vida de um país em cujas fronteiras estão presentes tantas mazelas e contradições. Daí resulta a impressão de se lidar com dois Brasis, duas realidades contrastantes e contraditórias, absurdamente opostas, em que determinados grupos e classes desfrutam de bem-estar social e do desenvolvimento digno de um país de primeiro mundo, enquanto a maioria esmagadora vive na mais absoluta miséria e abandono no chamado “Brasi de Baxo ”.

A denúncia contra a injustiça social é percebida também no poema O operário e o camponês. Para Patativa, “o operário e o camponês são os dois desvalidos […] eu procuro unir os dois, mas vejo que há sempre uma dificuldade. O pobre do agregado, humilde, se sente mesmo que é menor do que o operário”. Entretanto, na percepção do poeta, ambos se encontram na mesma situação de abandono, marginalização e exploração:

Vão no mesmo itinerário / sofrendo a mesma opressão / nas cidades o operário / e o camponês no sertão / embora um do outro ausente / o que um sente o outro sente / se queimam na mesma brasa / e vivem na mesma guerra / os agregados sem terra / e os operários sem casa.

O historiador Albuquerque Jr., em sua tese de doutorado em História, ao comentar sobre as obras de Jorge Amado e Graciliano Ramos, declara que a intenção de ambos visa à denúncia de algumas misérias e contradições do nordeste, já que “são obras que querem ser um reclamo, um brado de alerta, às vezes beirando até o panfleto”.Podemos, de forma semelhante, declarar que na obra de Patativa encontramos também um brado de alerta através do qual o poeta expressa sua indignação em relação às injustiças atrozes que dominam de forma acentuada a vida de nordestinos menos favorecidos.

O poeta da militância política

Patativa do Assaré, conforme já mencionamos anteriormente, mesmo vivendo distante de um grande centro urbano, sempre esteve atento ao que acontecia no cenário político nacional e sempre atualizado com os principais fatos da política brasileira, pois entendia que sua poesia poderia ser também um instrumento eficiente para se manifestar (inclusive no período da chamada ditadura militar, marcado pela falta de expressão individual e coletiva) sua indignação e discordância perpetradas contra a falta de liberdade de expressão. Por conta disto é que se envolveu na Campanha das Diretas. Sobre este movimento escreveu o seguinte poema:

Bom camponês e operaro / a vida ta de amargá / o nosso estado precaro / não há quem possa agüentá / nesse espaço dos vinte ano / que a gente entrou pelo cano / a confusão é compreta / mode a coisa miorá / nós vamo bradar e gritar / pelas inleição direta. Camponês, meu bom irmão / e operaro da cidade / Vamo unir as nossas mão / e gritá por liberdade / levando na mesma pista / os estudante, os artista / e meus colega poeta / vamo todos reunido / fazer o maió alarido / pelas inleição direta […] Cadê a democracia / que o pudê tanto irradia / nas terra nacioná? / Tudo isso é demagogia / quem já viu democracia / sem direito de votá?

O envolvimento de Patativa do Assaré com a política ao longo de sua vida deixou marcas em sua produção literária, marcas que são resultado e fruto de uma consciência que não se calou diante de momentos cruciais de nossa trajetória política. Por exemplo, quando se iniciaram pelo país os comícios solicitando a anistia, o poeta não se eximiu de sua responsabilidade, uma vez que participou ativamente de tal movimento. Segundo Feitosa,

Sua participação no movimento da Anistia mostrou mais o poeta, mas era impulsionada por um sentimento de justiça e liberdade, uma busca utópica da verdade presentes desde a mais tenra idade que o moveu e o levou a se encontrar no futuro com figuras como Darcy Ribeiro e Teotônio Vilela, num dos memoráveis eventos que a Praça do Ferreira, em Fortaleza, assistiu: o comício em prol da anistia.

Para movimentos como este Patativa não deixou de dar sua contribuição. Através de sua poesia, procurou traduzir os anseios da sociedade da época e, ao pensar na anistia, produziu o poema Lição do pinto:

Vamos meu irmão / a grande lição / vamos aprender, / é belo o instinto / do pequeno pinto / antes de nascer […] Vamos minha gente / vamos para a frente / arrastando a cruz, / atrás da verdade / da fraternidade / que pregou Jesus […] Se direito temos / todos nós queremos / liberdade e paz, / no direito humano / não existe engano / todos são iguais / O pinto dentro do ovo / aspirando um mundo novo / não deixa de beliscar, / bate o bico, bate o bico / bate o bico, tico, tico / pra poder se libertar.

Patativa é também aquele que conhece os fatos que caracterizaram de forma conturbada a política brasileira em 1992. Desta forma, faz menção aos acontecimentos que “levaram ao afastamento de um Presidente da República e a toda a conjuntura que cercou ofato”.

Mais uma vez, por meio de seus versos, Patativa apresenta sua opinião sobre o que estava ocorrendo com o poema Encontro de Patativa do Assaré com a alma de Zé Limeira o poeta do absurdo:

A tua resposta eu achei excelente / sucessivamente tudo está mudando / ochefe dos chefes já foi afastado / O Brasil agora está bem diferente / nós temos agora novo presidente / saiu o Fernando entrou Itamar, / porém continua sem nada mudar / campeia a miséria que tudo consome / o rico roubando e o pobre com fome / nos dez de galope da beira do mar.

Na obra do poeta do sertão cearense se encontram presentes suas impressões e conceitos a respeito de tudo o que outrora ocorria no mundo da política na capital do poder, no planalto central. Pois é a impressão de alguém que está percebendo o caos e a desorganização social pelos quais passa o país naquele momento, por ocasião do afastamento do primeiro presidente eleito pelo voto direto após a queda do regime militar. De tal fato decorrem as seguintes impressões do poeta:

Nós estamos dentro de um caos da miséria / é tudo piléria e semente do mal / cresceu a malícia e morreu a moral / se envolveram todos na baixa matéria, / a crise presente é séria e bem séria / vem pla no e mais plano e sem plano acertar, / é que a maioria não quer trabalhar / do campo à cidade da pista ao asfalto / reina a violência o roubo e o assalto / nos dez de galope da beira do mar.

Patativa, na qualidade de um atento observador dos fatos que ocorriam na sociedade brasileira no início da década de 1990, traça o perfil de uma sociedade agonizada por várias e sérias denúncias de corrupção que grassavam na política brasileira. Apresenta também o quadro de uma inflação crescente e mostra com nitid ez o desencanto da sociedade com sucessivos planos econômicos, que insistiam em naufragar, um após o outro. É a visão nítida de um poeta do campo, que estava atento a tudo quanto estava acontecendo no âmbito político, não apenas em seu Estado, mas no Brasil.”


Fonte:
OZEAS DA SILVA NUNES: “INSPIRAÇÃO NORDESTINA: UMA LEITURA TEOLÓGICA NA POÉTICA DE PATATIVA DO ASSARÉ NA PONTE DO DIÁLOGO ENTRE TEOLOGIA E LITERATURA“. (Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião para obtenção do grau de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Antonio Carlos de Melo Magalhães). Universidade Metodista de São Paulo. São Bernardo do Campo, 2008 .

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

Fonte: Iba Mendes: Patativa do Assaré: o poeta da justiça social

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