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Tradição garantida: jovens pernambucanos não deixam a sanfona morrer

Músicos têm entre 14 e 20 anos, praticam a arte da sanfona diariamente e vencem os altos custos do instrumento e a baixa oferta de cursos especializados

 

Por: Larissa Lins – Diario de Pernambuco

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Os jovens talentos da sanfona garantem a perpetuação das tradições populares nordestinas. Foto: Brenda Alcantara/DP
É com vizinhos e parentes próximos que se dá, geralmente, o primeiro contato de crianças e jovens com instrumentos musicais da cultura popular. Enquanto as vozes de expoentes do forró nordestino, como Luiz Gonzaga e Dominguinhos, soam nas rádios comunitárias e embalam reuniões familiares, ocorre o que os novos talentos do cancioneiro regional costumam chamar de afinidade, encantamento. Desse ponto em diante, o investimento financeiro necessário à compra de material, a disciplina no estudo formal do instrumento, a baixa oferta de cursos especializados, a conciliação entre a prática musical e a educação regular, a resistência de amigos da mesma faixa etária em relação ao artefato folclórico e a responsabilidade precoce de perpetuar tradições populares atávicas são os principais desafios da nova geração de “sanfoneiros” do estado.

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“Embora o acordeon seja o instrumento mais associado ao folclore nordestino, não temos o hábito de estudar acordeon erudito na região. Existe um mito de que o dom é suficiente, que o sanfoneiro precisa tocar pela intuição, sem depender de partituras”, explica o músico Júlio Cesar Mendes, professor de acordeon no Conservatório Pernambucano de Música, onde o instrumento ganhou curso próprio há cerca de sete anos, embora a instituição tenha aberto as portas em 1930. “É uma lacuna antiga. O Movimento Armorial, por exemplo, dedicado a valorizar a cultura popular nordestina, não incluiu o acordeon, provavelmente porque naquela época não havia instrumentistas que dominassem a técnica, as partituras. É um instrumento muito pernambucano, mas há décadas sofre com a falta de musicistas dedicados a seu repertório”, diz Mendes.

Nos últimos cinco anos, contudo, em provável decorrência da popularização da música sertaneja no país, a procura pelo aprimoramento técnico aumentou sensivelmente, segundo o professor. O mercado vem exigindo destreza na interpretação de partituras durante gravações formais. “Essa é a principal demanda. Eles precisam acompanhar as partituras, dominar essa ferramenta ao participar de discos de outros artistas e gravar os seus próprios, o que é fundamental no início da carreira”, pontua o acordonista. A motivação mercadológica, garante ele, não desmerece a busca por conhecimento. A cada nova turma composta, o professor vê diminuir a proporção de alunos interessados em explorar as potencialidades do acordeon e aqueles ávidos por “tocar forró”, enquanto cresce a quantidade absoluta de novos instrumentistas – neste semestre, 18 alunos estão inscritos na turma.

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O alto custo do instrumento é entrave à adesão dos mais novos à arte do acordeon, mas compra de usados pode ser boa opção. Foto: Brenda Alcantara/DP
O alto custo do instrumento é entrave à adesão dos mais novos à arte do acordeon, mas compra de usados pode ser boa opção. Foto: Brenda Alcantara/DP

A carga folclórica e o nível de dificuldade técnica são alguns dos principais empecilhos à popularização do instrumento entre os mais jovens, dizem os acordeonistas profissionais. Deda do Acordeon, pai de três filhos, se surpreendeu quando o mais novo demonstrou interresse pela “sanfona”: aos sete anos, Paulo Henrique recebeu do pai o primeiro acordeon, que lhe renderia, em pouco tempo, a alcunha de Paulo Henrique dos Oito Baixos. Com 11 anos, Paulo e Deda gravaram a primeira música juntos, Assum preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira). “Quando uma criança ou adolescente se interessa pela cultura popular, os mais velhos têm obrigação de incentivar. Isso garante que nosso folclore não morrerá agora, nem quando a geração atual de tocadores abandonar os palcos. Eles são guardiões do nosso legado”, opina Deda, natural de Passira, cidade do Agreste pernambucano, onde o forró domina a trilha sonora.

“É preciso que a meninada se engaje, que haja renovação. Tivemos expoentes como Luiz Gonzaga e Domiguinhos, mas e agora? E daqui a 20 anos?”, questiona Floriano Maciel, cuja filha Karoline é revelação da “sanfona” aos 15 anos. Apaixonado pelo repente nordestino, ele desembolsou R$ 3 mil para a compra de acordeon usado quando a filha enveredou pela carreira musical precoce. A prática diária do instrumento e a assiduidade no curso formal, elementos apontados por especialistas como fundamentais ao amadurecimento da habilidade musical, são cobrados a Karoline pelo pai. “Sanfona” em mãos, ela está entre os instrumentistas entre 14 e 20 anos que falaram ao Viver sobre a relação deles com o acordeon e a perpetuação da cultura popular pernambucana.

Karoline Maciel, 15 anos
“Devo muito ao Mestre Camarão”

Karoline Maciel teve aulas com o Mestre Camarão desde a infância. Foto: Brenda Alcantara/DP
Karoline Maciel teve aulas com o Mestre Camarão desde a infância. Foto: Brenda Alcantara/DP

No colégio, os primeiros desenhos assinados por Karoline reproduziam invariavelmente os contornos de uma sanfona. Aos sete anos de idade, ela conseguiu chamar a atenção do pai: intrigado com a repetição da figura nos trabalhos escolares da filha, Floriano Maciel decidiu matricular a menina numa escola de música próxima à sua casa – onde, embora não houvesse acordeon disponível para o treinamento, uma professora introduziu Karoline no estudo do instrumento. Poucos anos depois, as aulas com o Mestre Camarão, sanfoneiro tradicional do Agreste pernambucano, foram o caminho natural para a jovem instrumentista.

“Estudei com ele durante seis anos. Devo muito ao Mestre Camarão. Foi ele quem indicou que eu me matriculasse no Conservatório Pernambucano de Música, onde ainda estudo”, lembra Karoline. Foi com Camarão que ela subiu pela primeira vez ao palco, em show junino no Agreste do estado. Dali, seu nome e talento chegaram às rádios e ganharam vitrine.

Hoje, aos 15 anos, Karoline Maciel acumula alguns shows – na próxima quarta-feira, se apresenta em Igarassu – e oito anos de treinamento diário. Com o instrumento em mãos, Karoline explora acordes do forró pé-de-serra e do chorinho. “Às vezes, é difícil conciliar com a agenda escolar, ainda mais com a proximidade do Enem. Quando não posso treinar todos os dias, treino nos fins de semana e compareço às audições no conservatório às segundas”, explica a musicista. Para ela, a resistência dos mais jovens – são poucos com o seu perfil – ao acordeon se deve à maior afinidade das crianças e adolescentes com a música pop, o que os atrai para a prática de instrumentos como guitarra e bateria. “Há, ainda, os que procuram a música clássica, erudita, e se dedicam ao piano e ao violino. O acordeon ainda é muito associado ao folclore e, talvez por isso, menos popular.”

Julia Soledade, 14 anos
“Escolhi o forró para homenagear meu pai”

O treino diário é uma das exigências para o aprimoramento do talento dos mais jovens. Foto: Brenda Alcantara/DP
O treino diário é uma das exigências para o aprimoramento do talento dos mais jovens. Foto: Brenda Alcantara/DP

Sem qualquer interesse prévio pela prática musical, Julia foi encorajada pelo pai a assistir a shows de forró e comparecer a rodas de sanfona na Região Metropolitana do Recife. Seu Josenildo de Melo não parecia disposto a abrir mão do sonho de ver a filha transformar-se em instrumentista. E conseguiu. Aos nove anos, a menina decidiu acumular nova habilidade e, entre os gêneros musicais que já lhe haviam sido apresentados, abraçou o forró. “Escolhi o forró para homenagear meu pai. É o gênero de que ele mais gosta, do qual assisti a mais shows. Nasceu em mim o pensamento de que deveria aprender a tocar aquelas notas”, lembra a jovem, hoje com 14 anos.

Há seis meses, Julia deixou o Conservatório Pernambucano de Música, onde estudava há mais de cinco anos, a fim de se dedicar ao ano letivo regular nas proximidades de casa, em Pau Amarelo, mais de 20 km distante da instituição musical. “Para não perder a prática, continuo tocando em casa, treinando todos os dias”, revela. A musicista faz apresentações esporádicas em casas de show da RMR, em formato solo ou acompanhando bandas de forró locais. Foram necessários dois anos entre as primeiras aulas e a estreia nos palcos. Ela garante que o instrumento está entre os mais incomuns na sua faixa etária.

“Todos os jovens que conheço querem aprender somente a tocar violão”, brinca. Ela, porém, pretende seguir carreira com o acordeon em mãos. Julia Soledade diz que é preciso incentivar os mais jovens a perpetuarem o legado de nomes como Luiz Gonzaga e Zé Dantas, vultos do forró nordestino, através de campanhas educativas e no ambiente doméstico. “As pessoas precisam apreciar a cultura da nossa região, que anda desvalorizada. Elas precisam reaprender a achar bonito o que é folclórico, seja ouvindo música em casa, seja frequentando shows ou festas de tradição popular.”

Paulo Henrique, 16 anos
“Eu acredito ter um dom dado por Deus”

Paulo Henrique descobriu a sanfona nos braços do avô. Foto: Brenda Alcantara/DP
Paulo Henrique descobriu a sanfona nos braços do avô. Foto: Brenda Alcantara/DP

Paulo tinha poucos anos de idade quando seu avô, Siciliano, lhe perguntou se gostaria de segurar seu acordeon. A família costuma recordar a cena, gênese do apego do menino àsanfona: sentado no chão, Paulo disse ao avô que não conseguiria tocar um instrumento tão grande. Anos mais tarde, após a morte de Seu Siciliano, no entanto, ele conseguiu. Em dois meses, dominava o acordeon, testado pela primeira vez aos cinco anos. Um pouco mais tarde, descobriu asanfona de oito baixos – ainda mais incomum entre jovens musicistas – e decidiu se dedicar a ela. Aos sete, subiu ao palco pela primeira vez. No Youtube, torna público o talento e conquista seguidores.

“A sanfona de oito baixos é um instrumento difícil, com possibilidades sonoras limitadas. Isso afasta as pessoas que querem se aventurar na música instrumental. Além disso, sinto que há pouca valorização dos instrumentos de fole, embora este seja um segmento importantíssimo da cultura popular nordestina”, arrisca Paulo, que já se sentiu deslocado entre colegas da mesma faixa etária ao anunciar sua aptidão com o acordeon. Neste São João, por ora, não há shows marcados na agenda. Mas o garoto planeja seguir carreira profissional. Paulo Henrique treina duas horas por dia e tem o apoio do pai, o músico Deda do Acordeon, uma de suas principais inspirações.

À exceção de lições esporádicas entre a família, Paulo é autodidata e nunca frequentou instituições de ensino técnico da música. “Tiro os acordes e arranjos de ouvido. Reproduzo as músicas de que mais gosto e, quando tenho dúvidas, procuro o meu pai.” Ele acredita ter aptidão incomum para o exercício musical. “Acredito ter um dom dado por Deus, é algo que já veio no meu sangue, como ocorreu ao meu pai e ao meu avô”, reflete o jovem, conhecido pelo nome artístico de Paulo Henrique dos Oito Baixos.

Damaris Referino, 20 anos
“A parte mais difícil foi comprar meu acordeon”

Damaris se mudou para a capital pernambucana há dois anos e, desde então, se dedica ao estudo do acordeon. Foto: Brenda Alcantara/DP
Damaris se mudou para a capital pernambucana há dois anos e, desde então, se dedica ao estudo do acordeon. Foto: Brenda Alcantara/DP

Natural de Serra Talhada, no Sertão Pernambucano, Damaris Referino descobriu o acordeon aos 16 anos. Sem recursos para adquirir o próprio instrumento – os acordeons mais simples custam, em média, 3 mil reais -, ela treinava as habilidades em aulas semanais. Tão logo completou 18 anos e acumulou o investimento necessário, realizou a tão sonhada compra e arrumou as malas para seguir viagem rumo à capital do estado, onde passou a estudar no Conservatório Pernambucano de Música. No Recife, faz shows e participa de encontros mensais de sanfoneiros. Aos 20 anos, sonha mais além: “vou gravar meu primeiro disco até o próximo ano.” O repertório de Damaris contempla não somente Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Zé Dantas, ícones do forró, mas também MPB, chorinho e música clássica. Terezinha do Acordeon, natural de Salgueiro, é sua principal inspiração. “Se há poucos jovens abraçando a sanfona e os instrumentos típicos do folclore nordestino, há ainda menos mulheres engajadas nesse ramo da música”, opina a instrumentista, que se orgulha de compor as duas minorias.

“Sempre fui uma criança com inclinação musical. Cantava na igreja, comecei cedo a tocar violão, mas percebia que me faltava algo, uma identificação… Meus pais não tocavam, mas ouviam muito as músicas regionais. Na nossa cidade, o forró era o gênero mais frequente. De tanto ouvir sua voz, pesquisei sobre a vida de Luiz Gonzaga e me apaixonei por ele”, conta Damaris. Ela pretende ingressar na faculdade de música e se especializar em composição e arranjo. Quer agregar novos elementos ao forró de raiz, sem perder as origens, nem o sotaque. “Penso em somar forró, maracatu, coco, cavalo marinho, manguebeat… Por que não?”, planeja. Embora poucos jovens se envolvam com o fole, Damaris acredita que há contingente de novos músicos bastantes para perpetuar as tradições do cancioneiro nordestino. A musicista pratica entre uma e três horas por dia, entre as aulas de canto e de acordeon.

Thiago dos Santos, 17 anos
“A sonoridade da sanfona me encanta.”

Thiaguinho do Acordeon gravou CD promocional em 2014. Foto: Malu Cavalcanti/DP
Thiaguinho do Acordeon gravou CD promocional em 2014. Foto: Malu Cavalcanti/DP

Aos 17, Thiago se dedica ao acordeon há mais de dez anos. O primeiro contato com o instrumento foi inusitado: no colégio, enquanto assistia ao filme Dois filhos de Francisco (2005), sobre a trajetória pessoal e artística da dupla Zezé Di Camargo e Luciano, a sanfona atraiu a atenção do menino. Naquele mesmo dia, voltou para casa decidido a conseguir o apoio dos pais para se dedicar ao fole. Antes de se matricular no Conservatório Pernambucano de Música, onde estuda hoje em dia, treinou com três professores diferentes. Todos eles recomendavam a persistência nos estudos. O apego ao instrumento jamais foi explicado: “Não sei definir, nem justificar. A sonoridade da sanfona me encanta.”

Enquanto credita o amadurecimento precoce do próprio talento à decisão da família em incentivar sua aptidão, ele vê a educação doméstica como ferramenta de incentivo à iniciação musical. “Se os pais ouvissem Dominguinhos, Luiz Gonzaga, as crianças cresceriam já familiarizadas com nosso repertório popular. Enquanto isso não ocorre, os jovens seguem cada vez mais afastados do forró de raiz, da música regional”, analisa. Ele treina duas horas por dia, e o pai viabiliza a compra dos acordeons. Gonzaga, Flávio José, Mestre Gennaro e Sivuca são as referências musicais de Thiaguinho do Acordeon, como ele gosta de ser chamado. Na bagagem, um CD promocional gravado há dois anos, a fim de divulgar seu trabalho na noite recifense.

>> DICAS

Prática diária: professores e instrumentistas profissionais recomendam a prática diária da técnica musical. O acordeon, como qualquer outro instrumento, não deve ser deixado de lado, sob o risco de desgaste das habilidades adquiridas ao longo do curso formal. É recomendável o mínimo de uma hora diária de treinamento.

Compra de usados:
os altos custos de instrumentos musicais são, por vezes, impeditivos no desenvolvimento das aptidões dos mais jovens. Economicamente dependentes, eles recorrem aos pais ou tutores para adquirir material próprio. Os acordeons mais simples custam, em média, R$ 2,5 mil. A compra de usados na internet ou através de negociação direta entre músicos pode ser bom negócio.

Ensino técnico:
o aprimoramento técnico requer orientação profissional. No Conservatório Pernambucano de Música, estão abertas inscrições para turmas iniciantes através do site da instituição. A interpretação de partituras, o domínio das notas e arranjos e a harmonia em conjunto são alguns dos ensinamentos básicos, indispensáveis à inserção no mercado.

Inspiração: nomes como Luiz Gonzaga, Zé Dantas e Dominguinhos podem inspirar os mais jovens a desenvolver suas próprias habilidades. O contato com a música ainda na infância torna familiar o cancioneiro popular da região. Muitos adquirem, pela audição, facilidade em reproduzir as músicas sem partituras.

Deda do Acordeon orienta o filho, em quem deposita esperança de perpetuar seu legado. Foto: Brenda Alcantara/DP
Deda do Acordeon orienta o filho, em quem deposita esperança de perpetuar seu legado. Foto: Brenda Alcantara/DP

>> DIFERENÇA TÉCNICA

Sanfona x Acordeon: “Convencionou-se chamar de sanfona o instrumento que, a rigor, é um acordeon. Mesmo a chamada ‘sanfona de oito baixos’ é, na verdade, um acordeon diatônico. A sanfona é um instrumento medieval. Em países como Portugal, é chamada de viola de roda. Não se sabe ao certo a origem da associação entre as denominações. Mas os sanfoneiros regionais são, tecnocamente falando, acordeonistas.” (Júlio Cesar Mendes, professor e instrumentista)

>> ENTREVISTA: Julio Cesar Mendes, musicista e professor de acordeon do Conservatório Pernambucano de Música

 

Julio Cesar é professor de acordeon no Conservatório Pernambucano de Música, onde o instrumento ganhou curso em 2009. Foto: Facebook/Reprodução
Julio Cesar é professor de acordeon no Conservatório Pernambucano de Música, onde o instrumento ganhou curso em 2009. Foto: Facebook/Reprodução

Qual o enfoque do Conservatório Pernambucano sobre o acordeon?
O Conservatório oferece aulas de acordeon há seis anos, sou o primeiro professor do segmento na instituição. O enfoque é estudar o acordeon e suas potencialidades, não necessariamente associadas ao forró. Em paralelo, há uma disciplina de prática do forró, que agrega diferentes instrumentos e aptidões, como percussão, violão de sete cordas, bateria, baixo…

Entre os alunos, o forró é o principal atrativo?

Sim. Mas já não é absoluto como antes. Hoje, cerca de 70% dos alunos vêm ao conservatório estudar acordeon pela afinidade com o forró. Antes, eram 100%.

Existe, por outro lado, algum tipo de resistência entre os musicistas diante da associação do acordeon ao forró?

Existe, sim. Há um preconceito de que o forró requer aptidão, que deve ser aprendido de ouvido, sem o estudo acadêmico, sem as partituras clássicas. Muitos acham que, ao estudar as partituras, o músico fica dependente da teoria, incapaz de improvisar. Não é verdade. Sivuca, por exemplo, lia partituras. Dominguinhos não lia partituras, mas valorizava muito o estudo da música.

Em quanto tempo um músico está apto a tocar acordeon com destreza?
A experiência em qualquer instrumento depende da prática, não necessariamente do estudo teórico. Mas, em cerca de dois anos, uma pessoa com uma bagagem mínima e alguma aptidão está apta a tocar bem. Isso é absolutamente relativo, reforçando, pois cada um tem um ritmo. Mas essa é a média.

A que credita o quórum reduzido de jovens dedicados ao estudo do acordeon?
Como professor, eu diria que não temos esse hábito porque a educação, em geral, é precária no Brasil. As pessoas não tem o costume de estudar determinado instrumento, se dedicar a fundo a algum talento. Elas preferem tratar aptidões como hobby. No Nordeste, isso é ainda mais grave, a população acredita que o instrumento, por ser associado ao folclore local, deve ser tocado intuitivamente, sem instrução formal. No Sul do país, por exemplo, o acordeon também é um instrumento folclórico, mas seu estudo é mais popular, mais valorizado. Além disso, o acordeon é um isntrumento caro, requer investimento. Não se consegue um acordeon por menos de 2,5 mil reais. Um ideal custa, em média, R$ 5 mil.

E qual a importância desse estudo, desssa valorização?
É importantíssimo o estudo da técnica do acordeon, não somente no sentido folclórico, mas musical. Cada país tem o acordeon aplicado a determinadas músicas tipicas. Lá fora, o acordeon é tratado como instrumento sinfônico também. Há concertos para orquestra e acordeon. O estudo abre as possibilidades do instrumento para além do forró, na música erudita, no jazz.

Fonte: Diario de Pernambuco

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